
A união matrimonial tinha o peso de restabelecer os laços (enfraquecidos) entre os Bragança e Habsburgo. Esta aliança já havia sido formada quando d. João V uniu-se com d. Mariana, em 1708. Conforme imagens que veremos adiante, os personagens incumbidos das minuciosas negociações estratégicas que levaram ao acerto final do casamento real foram: do lado da Áustria - o premier austríaco, o príncipe Metternich, filho de Francisco I, imperador da Áustria, rei da Hungria e Boêmia, já do lado luso, o marquês de Marialva, ministro plenipotenciário português.
Marialva foi recebido em Viena, em 17 de fevereiro de 1817. O ministro apresentou-se com uma suntuosa "entourage", composta de 77 pessoas, entre pajens, criados e oficiais, a pé e montados. As carruagens foram acompanhadas por criados de ambos os lados, todos vestidos da mais fina libré. O cortejo real fora fechado com as representações de Inglaterra, França e Espanha. Todos os movimentos dispensados nesta sublime ocasião foram minuciosamente registrados pela Gazeta do Rio de Janeiro, pertencente aos fluminenses.
A GRANDE FESTA
Em 1º de junho o então ministro Marialva coordenou a preparação daquela que seria uma das mais suntuosas funções realizadas em casa imperial européia. Para ocasião, Marialva ordenou a construção de salões nos belíssimos jardins do Augarten de Viena, palco de um baile que abrigaria mais de duas mil pessoas. Os convidados mais importantes, envolvendo todo corpo diplomático e nobreza austríaca, presenciaram tamanha celebração. A festa contou ainda com refinada ceia servida após a dança. Mesas com talheres em prata e ouro, finas taças recebiam o mais refinado vinho. Uma orquestra foi especialmente elaborada (em diversos lugares) para enriquecer o evento e animar o povo presente fora do palácio.
O PREÇO DA RAINHA
A Coroa portuguesa fez questão de não se esquecer de nenhum membro da corte austríaca. Providenciou presentes extraordinariamente valiosos para os grandes da Áustria. A festa promovida por Marialva relatada há pouco, custou mais de um milhão de florins. Jóias e veneras de ordens honorificas atingiram 5.800 libras. A disposição portuguesa em ofertar valiosas fortunas começou logo nos primeiros contatos estabelecidos pelo conde da Barca com respeito às relações diplomáticas para o casamento entre d. Pedro de Alcântara, príncipe real do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves e d. Carolina Leopoldina Josefa, princesa imperial e arquiduquesa da Áustria.
A estratégia exercida pela Coroa lusitana, de não economizar nenhuma agraciamento traduzido em altíssimos valores, foi responsável por grande parte da divida que o nascente Estado brasileiro teve que herdar. O Imperador Francisco I foi convencido a mandar sua filha para o Brasil após receber um inestimável incentivo traduzido num tesouro composto por jóias, diamantes e barras de ouro.
As riquezas disponibilizadas a Francisco I serviram de fiança para o envio de sua filha aos trópicos, sem saber, que não voltaria viva. A referida união matrimonial esclarecia que muitos interesses (tanto na dimensão política quanto diplomática) estavam em jogo, ilustrados em valores e poderes que reiteravam os laços de sangue de duas casas tradicionais européias.
O CONTRATO
O Arquivo Nacional do Rio de Janeiro dispõe duma cópia do contrato lavrado em Viena, em francês, contendo 12 cláusulas demarcando as possíveis situações a respeito do destino de Leopoldina no "arranjo" de sua vinda ao Rio de Janeiro, na ocasião, sede da Coroa portuguesa. Veremos a seguir, algumas cláusulas do referido contrato, traduzidas em português.
*** S.M. Imperial e Real Apostólica constituída em dote à Sereníssima Princesa a soma de 200 mil florins, pagos em dinheiro em Viena durante a celebração do casório; e, quando do embarque, deveria certificar-se se sua filha levava o "trousseau nécessaire", as jóias, vasos de ouro e prata, etc., etc., conforme o uso estabelecido na Casa da Áustria.
*** Ficava o Príncipe obrigado a dar à consorte uma soma equivalente em contradote, de modo que o total de ambos será de 400 mil florins.
*** D. João ficava obrigado a dar à nora uma pensão anual de 60 mil florins "á titre d´épingles" ("a titulo de alfinetes" - uma espécie de pensão como contratode), que seria paga no montante de 5 mil por mês.
*** S.M. Fidelíssima Francisco I, por sua parte, prometia ao Príncipe esposo, em contraparte, a mesma soma de 60 mil florins "á titre de cadeau de noces" (a título de presente de casamento).
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